quinta-feira, 26 de junho de 2008

Amor ao Rio

Aprendi a ver o Rio de Janeiro de maneira diferente depois que meu filho foi morar lá. A cada viagem que faço ao Rio já converso como se fosse velho conhecido: - e tal lugar, continua o mesmo? Cada vez que retorno, também vou conhecendo um pouquinho mais dessa cidade. Passei a amar o Rio, seu lugares e suas pessoas. Em consequência passei também a me interessar sobre escritos sobre o Rio de Janeiro. Esta semana li (devorei) um livro fantástico para quem ama o Rio. Trata-se do livro "Carnaval no fogo" de Ruy Castro. Recomendo a todos e, para atiçar a curiosidade, tomo a liberdade de transcrever o pequeno trecho. Espero que gostem e busquem o livro para também devora-lo.




... "Coisas estranhas aconteceram nos primeiros meses de 2002, quando o Rio recebeu a exposição Egito faraônico, vinda do Louvre. Era uma mostra de 88 peças, incluindo múmias, sarcófagos, esculturas, objetos, jóias e, como estrelas do show, duas esfinges de quarenta toneladas cada. A exposição se deu na Casa França-Brasil, um centro de troca cultural entre os dois países. Durante os dois meses em que ficou em cartaz, tudo correu normalmente: 150 mil cariocas a visitaram e não se registrou um caso de alergia ou de ataque de espirros provocado pela idade das peças. A exposição coincidiu com o Carnaval e, como não poderia deixar de ser, inspirou um bloco carnavalesco chamado Ísis, a Poderosa, fundado pela então presidente da instituição, Dalva Lazaroni. O bloco saiu da casa França-Brasil e desfilou animadamente pelas ruas em torno. A mostra foi um sucesso, os franceses ficaram contentes, todo mundo adorou. O problema surgiu em Abril, quando a exposição terminou e o material foi embalado para ser mandado de volta para Paris.
Primeiro, a empilhadeira que iria levantar os contêineres quebrou. Dias depois, resolvido o problema, os caminhões que transportariam os ditos ficaram sem bateria. Trocadas as baterias, os contêineres foram levados para o avião, mas este acusou uma avaria que ninguém conseguia resolver e se recusou a decolar. Os curadores da exposição, egiptólogos seriísimos, riram e disseram que as peças “não queriam ir embora do Rio”. Mas, ao recordar as condições em que se dera a exposição, pararam de rir – podia haver algum fundamento nessa suposição maluca.
Começa pelo prédio onde fica a Casa França-Brasil. Foi a primeira edificação neoclássica do Rio, construída em 1819 pelo arquiteto francês Grandjean de Montigny para abrigar uma pioneira Bolsa de Valores brasileira e, depois, a Alfândega. Montigny foi um dos membros da Missão Artística francesa que se instalou no Rio em 1816 a convite de d. João. Até aí, nada de mais. Só que, pouco antes disso, quando ainda estava em Paris, Montigny fora o arquiteto destacado para restaurar as esfinges que Napoleão trouxera de sua desastrada campanha no Egito. As mesmas esfinges que, quase duzentos anos depois, viriam parar na exposição da Casa França-Brasil. Talvez elas tivessem “sentido” naquele ambiente as mãos carinhosas do homem que reparara os estragos feitos por Napoleão ao arrancá-las de seus pedestrais no Egito e levá-las aos trambolhões para o Louvre. “Saudades” de Grandjean ? Isso é absurdo, dirá você. Mas sabe-se lá? Com essas coisas do Egito não se brinca.
Como se não bastasse, a exposição fora armada de modo a dar ao visitante a ilusão de estar penetrando num templo egípcio. Os curadores se lembraram de que, ao meio-dia, o sol de abril do Rio, entrando pela clarabóia da Casa França-Brasil, disparava um raio sobre a escultura do Rei-Sol no exato ângulo em que isso acontecia nos templos do velho Egito – quem sabe se o Rei-Sol não se sensibilizou com aquela gentileza? E eles já tinham observado que há muito as múmias não lhes pareciam tão viçosas e robustas como na Casa França-Brasil. Pode ser também que o desfile do bloco de Carnaval em homenagem a Ísis tivesse despertado nelas uma lembrança das velhas festas pagãs – afinal, foi no Egito que o Carnaval começou.
Os egiptólogos acreditam em “energias”, você sabe. Diante de tanta energia positiva, não era impossível que, querendo ficar no Rio, as múmias e as esfinges estivessem “provocando” aqueles acidentes. Mas, inexoravelmente, o defeito no avião foi consertado e elas tiveram de ir embora, o que fizeram esperneando. "...

Dignart

Um comentário:

Dig e Bia; Vicente e Odá disse...
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